Não me tornei professora por desejo. Simplesmente aceitei o caminho que a vida me acenava. Tinha dado certo com meus pais e minhas tias, porque não daria comigo? Tudo o que eu queria era um emprego - dinheiro, liberdade, independência, respeito - era o que significava para mim o curso de pedagogia quando às suas portas eu me encontrava aos 17 anos.
No desenrolar da graduação foram surgindo novos interesses. Percebi que filosofia me encantava! Sociologia, Política, Economia, faziam o mundo se descortinar sob os meus olhos. Aliás, era como se ganhasse novos olhos. Isso me despertou um sentimento de engajamento com as causas sociais, eu queria praticar aquilo tudo. Era uma fome voraz por entender, ler, apreender esse mundo cheio de novidades. A admiração pelos meus professores, por sua vez, fazia com que eu me espelhasse neles e desejasse ser como eles "quando crescesse". Os estudos se tornaram algo crucial na minha vida, me dando um sentido, um rumo, uma ideia de futuro. Eu o colocava acima dos prazeres da juventude, apesar de ter, conforme penso, aproveitado o suficiente também este aspecto da vida.
O que vivi de fundamental na universidade foi a greve de professores. Nela pude testar meus conhecimentos, superar alguns entraves, como a timidez, e consegui me colocar inteiramente naquela ação junto com outros estudantes. Foi "uma delícia, cheia de loucura" como costumávamos nos referir àquele momento. E percebi algo relevante sobre mim: apesar de tímida, eu convencia o público. De algum modo, as pessoas confiavam em mim, entendiam minhas palavras. Estava confiante e segura. Apesar da intensidade desse momento, não abandonei meu plano do emprego seguro e estável, pois era crucial para minha liberdade e independência. Ao terminar a pedagogia logo passei em um concurso público como professora de educação infantil. Fiquei radiante, meu salário duplicaria, eu poderia pagar a minha pós graduação. Especialização em ciências sociais, lá vou eu. Fui com grandes expectativas em conhecer pessoas engajadas nas mesmas causas que eu e poder partilhar, construir, solidificar conhecimentos, ações e relações.
Ledo engano. Me deparei com alunos orgulhosos e prepotentes que demonstravam claramente o seu desprezo logo quando eu lhes dizia em que me formei e o que fazia. "Você é tia? O que está fazendo perdida aqui, nas ciências sociais?" era o que eu podia ler em suas mentes através de seus olhares. Durante as aulas esses alunos se esforçavam para exibir seus conhecimentos, às vezes até entravam em alguma disputa com os professores, o que eu achava desnecessário e arrogante. Foi decepcionante, mas não me abalou. Eu estava deslumbrada demais com as aulas, os livros, os professores incríveis e as novas descobertas para dar atenção a pensamentos alheios.
Descobri nessa pós um novo gosto: as artes. As aulas de história e sociologia da arte simplesmente me encantavam! E passei a querer ler os clássicos, aprender sobre música e tudo o mais nesse universo. Ainda assim, novamente senti que filosofia me atraía, e que eu possuía uma dada facilidade para com esta disciplina. Isso fez com que eu escolhesse ontologia para a minha monografia.
Enquanto isso, lá estava eu, trabalhando como professora de educação infantil em um "CEI" - antiga creche - dando de comida, limpando e cuidando de crianças - mas também fazendo projetos pedagógicos bem criativos dos quais eu me orgulhava. O CEI era relativamente novo e fui muito bem recebida por todos - gestão, funcionários e professoras. Todos eram gentis, colaboravam e as professoras eram muito solidárias entre si. Era uma equipe. Eu amava. Não era perfeito, claro, e eu tinha muitas críticas à gestão, mas apesar disso, o ambiente era amistoso e agradável. A gestão era bem humana e também exigente, o que fazia a escola ser limpa e organizada.
Neste período eu estava engajada em concluir minha monografia. Estava mergulhada nos livros e ideias e a cada capítulo concluído sentia uma enorme satisfação. Minha professora orientadora - aquela que adorava ser bajulada pelos alunos - foi muito respeitosa e justa ao avaliar o meu trabalho - ainda que eu em nada lhe puxasse o saco. No entanto, ela convidou um professor para a banca de avaliação que apenas sabia enaltecer a si mesmo e aos seus próprios trabalhos, todo o tempo. Mais parecia uma exposição narcisística do ego dele do que a avaliação de uma monografia. Nem sequer uma palavra útil ele referiu ao meu trabalho, que me impelisse ao estudo e indagação, pelo contrário, apenas achou algum "pêlo em ovo", que a própria professora tratou de refutar. Essa experiência me deixou perplexa e frustrada, pensando que "então é para trabalhar ao lado desse tipo de gente que estou me dedicando tanto a estudar?! É para isto que serve o conhecimento? Insuflar o ego?". Foi por terra toda a minha vontade e desejo de continuar nesse caminho, pelo menos por enquanto. Mal sabia eu que descobriria mais tarde que o conhecimento poderia servir a coisas ainda mais bizarras.
Quando concluí minha monografia eu já estava um pouco insatisfeita com a sala de aula. A falta de educação e limites das crianças, os pais que abdicavam de suas responsabilidades transferindo-as a nós, professores, tornavam o meu dia mais estafante que o de costume e, para piorar, em algum tempo, a diretora do CEI se aposentou e foi então que começou o meu martírio e frustração com a profissão.
Com a nova gestão, a escola foi se degradando, perdendo brilho, limpeza e o encanto. A nova diretora era entendida dos assuntos pedagógicos e completamente leiga com respeito à realidade da sala de aula - e, inclusive, no trato com as pessoas. Seu deslumbramento com a teoria fazia com que ela não enxergasse as reais necessidades da escola. E mais uma vez esbarrei na arrogância alheia. E mais uma vez vi o conhecimento destruir, ao invés, como sempre ouvi invocarem, de construir e agregar. Foi um avalanche destruidor o que essa pessoa causou à nossa escola - e, de certa forma, em mim- , que nem cabe aqui dizer. O desgosto e a enorme pressão que ela causava, além do clima hostil, foi o que me fizeram, com muita dor no coração, pedir remoção para outra unidade, na esperança de encontrar novamente um local onde eu tivesse paz para trabalhar.
Neste intervalo de tempo aconteceu algo incrível. Quando eu estava prestes a comprar meu apartamento e conquistar de vez minha independência, eis que me surge uma pessoa do limbo da minha adolescência. O Gabriel reapareceu em minha vida e eu morri de amores. Três vezes. Em seis meses resolvemos nos casar e em um ano éramos marido e mulher dividindo um apartamento de 50m². Ninguém acreditava, logo eu, toda libertária e questionadora da monogamia? Pois sim. Ele, advogado, seu grande objetivo na vida era, e continua sendo, ganhar dinheiro, ter uma vida confortável e ajudar seus familiares. Sua carreira deslanchou assim que casamos. Ao contrário da minha. Conforme ele subia, eu afundava.
Indiquei a nova escola às cegas, apenas por algumas indicações de conhecidos, tamanho era o meu desespero. Uma imensa besteira. A escola, ao contrário da antiga em seus melhores tempos, era totalmente precária. Sua arquitetura dos anos oitenta, com teto baixo, sem ventilação, torna o lugar infrequentável durante o verão. A sujeira e imundice que impregna a escola é algo vergonhoso. Um matagal cobrindo as áreas externas, entulhos nas calçadas, banheiros fedidos e precários, dentro das salas, sem ventilação alguma. Paredes descascando, piso deteriorado, uma enorme goteira no meio do corredor que leva às salas. Sequer uma sala dos professores descente tem. A escola é completamente aberta, sem segurança, e com diversos riscos ás crianças. Tudo é escasso: material básico de higiene como sabão líquido, álcool em gel e luvas, sempre falta e quando tem é a maior briga pra se conseguir algum. As pessoas me receberam friamente, ou, a bem da verdade, o grupo de professores da casa literalmente excluiu os professores novos, salvo uma ou outra professora. A diretora é adepta de fazer orações e falar de religião, ou melhor, da religião dela - santificando seus seguidores e desviando esses de qualquer responsabilidade sobre a realidade, inclusive ela própria. Os funcionários: frios, quando não indelicados e cínicos. A comunidade literalmente manda na escola, entram nas salas sem pedir licença, tratam o professor como o empregado que está a disposição deles. A gestão permite que mães venham a bater boca e gritar com professores no meio do corredor. As ideias sobre educação são do século passado, o pedagógico gira em torno de datas comemorativas e lembrancinhas para levar para a casa e agradar a família. As horas de estudo coletivo, levadas à risca, transbordam contradições, hipocrisias e exibicionismo. Na primeira reunião com os pais a diretora falou tanto de deus que me senti absolutamente desnecessária naquele contexto - como se deus em pessoa cuidasse de trocar as fraldas e alimentar os filhos deles. Para completar a enrascada em que me meti - porque desgraça pouca é bobagem - tratei de escolher uma sala com alunos menores do que eu estava acostumada e simplesmente com a bomba da escola - uma criança absolutamente descontrolada, agressiva e sem limites, sem nenhuma estrutura emocional e familiar - e, pasme: de apenas 3 anos. Enfim, o caos total. Sofri um verdadeiro redemoinho de retrocessos. Mas não parou por aí.
Em minha vida privada, iniciava uma nova fase: a vida de casado. Nos preparativos para o casório e enquanto decorava e mobiliava o novo apartamento, Gabriel e eu fantasiávamos como seria a vida a dois. O que seria ter uma casa nossa? Imaginamos diversas coisas. Primeiro, que seria diferente da casa de nossos pais. Que teria cor, comida saudável, atividade física. Que receberíamos amigos em reuniões onde rolaria comidinhas, bebidas e, porque não, até um "negocinho". Para isso preparamos a nossa casa. Eu sonhava em ter liberdade, momentos de "brisar" ouvindo música, paz para ler e estudar, mas principalmente um lugar com as minhas regras, à minha maneira. Mas, para nossa surpresa não foi bem isso o que aconteceu.
Foi um susto quando percebemos que a reprodução da própria vida era uma tarefa trabalhosa e muito árdua. Quando nos demos conta, a própria casa havia nos imposto suas regras. Limpar, lavar, passar, cozinhar, consertar, regar as plantas, organizar, ir à feira, ao mercado, à padaria, à farmácia, à loja de construção, consertar o carro, e de novo à feira, ao mercado, ao açougue, e novamente limpar, passar, cozinhar e cozinhar, e limpar de novo... Será possível que isso não tem fim?? E cadê as liberdades, as brisas, a leitura?? Nunca me senti tão sem tempo. E quando via qualquer centelha de tempo livre as energias que me restavam me impeliam ao sofá assistir qualquer coisa que fosse apenas para pegar no sono! E quanto aos amigos e reuniões... pior foi a nossa decepção!
Logo de cara minha melhor amiga, em um surto de ciúmes ou qualquer coisa que o valha, resolveu que a partir dali me trataria com o mais profundo desprezo. Foi minha madrinha de casamento e sequer se deu o trabalho de ir conhecer a minha casa. Disse e fez todo tipo de bizarrices para me chatear. O que me levou a crer que ela nutria um sentimento tão negativo por eu estar feliz que sua única satisfação era me ferir por aquilo. E conseguiu. Precisei me afastar o mais rapidamente para me resguardar de seus desmandos e mágoas indefinidas. Não sem dor.
E assim cheguei aos dias de hoje...
Nossos escassos amigos foram minguando. Cada um com sua rotina e responsabilidades, suas prioridades e expectativas, se ia sem marcar data para voltar. Enquanto isso, eu me afundava em tarefas domésticas intermináveis que sugavam toda a minha energia e ânimo. A rotina foi se apoderando de nosso lar rapidamente. Nada de festas, reuniões, nem mesmo a "brisa" para refrescar os pensamentos restou. Nós resistimos, inventamos dança, skate, viagens, passeios, meditação... Mas para mim não era o suficiente, não me preenchia, minha vida passou a carecer de sentido. Decepcionada desde a monografia, estacionei meus estudos e já não conseguia ver qualquer possibilidade de encaixá-lo na minha vida novamente. Primeiro, porque não via qualquer estímulo ao estudo ao meu redor. O Gabriel valorizava outras coisas e ficava arrepiado só de pensar em me ver estudar, simplesmente porque isso me afastaria dele. Não era declarado, mas algo implícito, como um acordo silencioso. Dessa forma, fui me preenchendo de Gabriel e vivenciado suas histórias sem poder contar as minhas próprias. Não por falta de espaço, mas por falta de viver qualquer história. Sem estudar, sem poesia, sem música, sem um círculo social, minhas palavras começaram a se resumir em lamúrias e lamentações. Meu mundo se limitou a apartamento-escola-casa dos pais.
Neste limitado universo, minhas atenções todas se voltaram ao meu trabalho. Comecei a me sentir cada vez mais deprimida, esmagada por aquele esgoto disfarçado de escola. Eu estava desfacelada. Naquele lugar me sentia desrespeitada, desamparada, ultrajada. A escola passou como um trator por sobre a minha dignidade enquanto profissional e enquanto ser humano. Fez eu me sentir um lixo, incapaz de fazer qualquer coisa que fosse para transformar minimamente aquele ambiente inóspito. Numa sala minúscula e se se deteriorando, cheia de crianças pequenas sem qualquer autonomia, mas muita energia para gritar, correr e bater-se uns aos outros - e, inclusive em mim - e sem qualquer tipo de apoio, eu passava todas as tardes apenas limpando, alimentando e as contendo para não se matarem. Qualquer tentativa de fazer algo voltado ao pedagógico era frustrante. Não existia mais profissional, porque não existia pedagógico capaz de resistir num ambiente como esse, degradado, antiquado, negligenciado e ideologicamente desfavorável a qualquer avanço. Dessa forma o sentido da minha profissão se esvaiu totalmente. Percebi mais profundamente como as pessoas enxergam hoje a profissão de professor. Simplesmente nos olham como coitados que não conseguiram nada melhor na vida. Ficou estampado na fala da assistente de direção o seu profundo desprezo pela profissão da qual ela própria faz parte "minha filha mais velha passou no vestibular de engenharia na faculdade tal, minha filha do meio é nutricionista formada pelo makenzie ... e a outra é professora." . Só faltou colocar aí um coitada!, antes do "é professora". São sutilezas que escancaram a completa falta de valor e de respeito da profissão. Aliás, isso quando nos enquadram na categoria "professor". Fico estupefata quando observo com que audaciosidade os pais nos tratam como babás de seus filhos, os quais eles próprios não suportam mais e querem socar a qualquer custo na creche, estejam eles doentes, com frio ou com dor, apenas para se livrarem da pedra no sapato, do incômodo, do estorvo, que são aquelas crianças em suas vidas!
Por fim, passei a odiar minha profissão com todas as minhas forças. Não tem um dia sequer que não me pergunto como sair dessa vida. A escola transformou-se em local de moer mentes, corpos e corações. Nos tornamos reféns de gestões que, quando não autoritárias, são negligentes e descompromissadas. Reféns de políticas públicas demagógicas, desumanas e sem qualquer compromisso real com o ensino, que nos enfiam goela abaixo responsabilidades que não são nossas e ainda nos cobram resultados. Fico me perguntando: eu, que sempre fui esforçada e dedicada. Eu, que tanto estudei, e tanto gostava do conhecimento, que tanto almejava crescer, me desenvolver, o que estou fazendo nesta situação tão constrangedora? Adoecendo por um emprego que nem vai me dar fortuna, fama, mas que pelo contrário, tira a cada dia minha dignidade? Porque estou fazendo isso comigo?? Não é possível que eu tenha o mesmo valor que tem aquele lugar, ou seja, nenhum! Que desgraça! Num lugar digno, esta é uma atividade digna, e eu não tiro nenhum mérito de quem nela está. Mas naquele antro de pulgas os únicos que ficam, tendo escolha, são os que se conformam a ser tão desprezíveis quanto o próprio lugar! E não, eu não quero me tornar desprezível a tal ponto.
Eis que surgiram novamente as crises de ansiedade, agora com um plus, a depressão. Tudo o que eu queria realmente era ir lá e pedir minha exoneração e me ver livre de uma vez desse peso que carrego. Não só da escola, mas da profissão. O fato de ser funcionária pública ao contrário de ser um alívio e uma segurança está se tornando uma prisão, uma corda que me esgana, que limita minhas possibilidades de crescimento. Sem falar na pressão familiar, na qual cada indivíduo melhorou de vida através do funcionalismo público. Abdicar dessa "chance" seria a morte. Eu quero sair do fundo desse poço, mas não vejo qualquer possibilidade. Estou sem forças, me sinto quebrada e culpada por não ser forte o bastante para aguentar e sobreviver a esse caos sem sair aos pedaços.
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