terça-feira, 28 de junho de 2016

Eu me alimento do meu silêncio

Agora fica claro porque sinto falta do meu quarto. Porque me sinto enclausurada nesse apartamento. E porque ter uma casa inteira não substituiu ter um quarto só meu. 

O meu quarto era o meu templo. Era um espaço de retiro, de reflexão, de contato com o meu eu mais íntimo, de conexão interior e equilíbrio. Porque nele eu estava a salvo do mundo, das pessoas, me sentia protegida. Nele eu podia me desfazer, morrer inteira, e depois me refazer, me reestruturar, sem dar qualquer satisfação a ninguém, logo, livre da vergonha, da culpa, do julgamento. Tudo isso num lugar sagrado. Porque era só meu, assim como o íntimo de cada um deve ser apenas de si próprio.

O apartamento eu o divido a cada metro quadrado com o Gabriel. Eu posso dividir a casa, mas não a minha alma. Até tento me expressar por aqui, mas não é como me expressar num lugar só meu. Sempre existirá o olhar do Gabriel. E por mais que eu o ame e sinta muito prazer em dividir minha vida com ele, sou ainda uma pessoa. Ainda tenho coisas que não quero dividir com ninguém. O casamento não é fundir duas pessoas em uma só. Eu agi como se fosse e estou aprendendo a duras penas que não é. Que isso é doloroso e sem sentido. Sou uma pessoa ainda. E não pode ser o casamento o que me define, sou muito além disso.

Quando deixei o meu quarto, perdi junto o meu mundo interior, a minha liberdade e logo o meu equilíbrio psíquico, minha força interior. Perdi a minha capacidade e necessidade de isolamento. Deixei de lado minha necessidade de reflexão, de cultivar aquilo que me fazia bem, para me fundir no Gabriel, participar dos interesses dele e da vida de casal, cheia de obrigações sociais. Aos poucos fui me anulando, anulei aquilo que fazia eu ser quem eu era, e por quem ele se encantou. Deixei de abastecer o meu espírito. Tenho uma mente inquieta e uma sensibilidade a flor da pele, o que me traz a enorme necessidade de estar em constante reflexão, leitura, filosofia, meditação, pois se não o faço, piro de ansiedade, não sou capaz de superar a menor dificuldade. E dividir com alguém a vida e a casa tornou muito difícil esse exercício. Primeiro porque a casa em si já me chama ao mundo, com suas obrigações e afazeres. Depois porque ela me chama ao mundo novamente com as responsabilidades sociais que implica estar casada. Casar é também se responsabilizar pela vida da outra pessoa. E eu me perdi nas necessidades do casal e dele, deixando para depois as minhas necessidades, ou não as considerando tão importantes assim. Aqui não encontro local, e muitas vezes nem tempo, momento,  e silêncio para a privacidade de que preciso.

A questão é que não preciso refletir uma vez por ano. Ou a cada dois meses. A reflexão precisa de constância porque nunca deixo de ser sensível, nem inquieta, porque isso é o que sou e não posso mudar, apenas posso extravasar e refletir  e cuidar para que essa característica não seja um entrave na minha vida, como está sendo exatamente agora. No entanto, não existe uma receita pronta para resolver esta questão, mesmo porque o casamento como a sociedade nos ensina não deixa lugar para a existência da individualidade. Portanto, teremos que criar as possibilidades, inventar novas formas, criar um novo repertório de comportamentos, se quisermos continuar nos desenvolvendo enquanto pessoa e enquanto casal.











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