Tem um buraco aqui. Eu não sei como ele surgiu. De repente me deparei com seu abismo, sua escuridão. De pequena circunferência e grande profundidade. O que eu deixei pra trás? Música, flores e poemas. Eu jamais pensei que a vida me engoliria dessa forma. Eu fui engolida. É como acordar de um coma. Quem eu era antes? E o que sou exatamente agora? Foi uma enxurrada. Foi muita decepção. Foi muita expectativa e muita frustração. Foi o entrecruzar de vidas e o que resultou dessas topadas todas. O que ficou de mim em mim? O que se foi com o cinismo alheio, a arrogância, a imoralidade? O que restou depois das mentiras? Do ciúmes e da inveja? O que fica desses fatídicos encontros? Meus pedaços ficaram pelo caminho. Cada topada, um rolar de pedras. Caem um, dois três, caem quatro. O mundo girando, não se pode parar. Preciso de um conselho. Um consolo. Uma esperança de que ainda vale a pena.
Quais os caminhos que me levaram a esse abismo?
É essa a pergunta que me faço dia após dia.
Eu segui a receita da vida ideal. Mesmo desconfiando desde jovem que isso não me caberia. Muito fácil: um emprego público com estabilidade e cujo salário não me mataria de fome, um casamento duradouro e filhos. Digno de comercial de margarina. Eu amava ler, escrever, discutir sobre as questões do mundo... Me formei professora. Eu queria ser revolucionária, escritora, pesquisadora... Passei em um concurso público para trabalhar com bebês e crianças até quatro anos. Sempre ávida por liberdade, por experiências diversas, por independência e autonomia... Casei. Tinha expectativas de levar uma vida saudável, com comida saudável e passeios no parque... Percebi as tarefas domésticas me engolindo. Pensei que amigos frequentariam minha casa e teríamos agradáveis momentos de conversa interessante, bebidinhas, música... Os amigos foram sumindo na fumaça do cotidiano, um a um, logo que me casei. Nesta mesma fumaça se foi minha autonomia, quando sofri um assalto, na porta do trabalho. Nessa fumaça foi-se embora também minha vontade de ler e estudar tão logo percebi as relações tão mesquinhas que forjavam o ambiente acadêmico. Nas tragédias e misérias cotidianas se foi minha vontade de revolucionar o mundo. Deste mesmo mundo só me restou angústia, ansiedade e uns comprimidos.
Que trágico fim. Eu não sou mais uma metamorfose ambulante, estou mais para contradição ambulante. E isso é um fracasso total. Fracasso dos meus sonhos, minhas vontades, meus desejos. Vitória do medo, da insegurança, da ansiedade. Eu não sei mais o que desejo de verdade. Tudo parece pálido e bisonho. Me sinto aturdida. Tudo foi desprovido de seu sentido. É o mundo de cabeça para baixo. É exatamente o mundo onde "tudo o que é sólido desmancha no ar". Me sinto assolada numa areia movediça que me engole cada vez mais e mais. Sem saída, num "mundo sem evasão possível". A minha força, o meu equilíbrio, a minha vontade de vida estão escorrendo por entre meus dedos e eu não consigo esboçar qualquer reação.
O que fazer diante disso? Como emergir da areia movediça? Como encontrar uma evasão possível? Como preencher esse abismo que me assola?
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