quinta-feira, 23 de junho de 2016

Crise de identidade - porque fazemos coisas que vão contra a nossa natureza?

Sei lá, deixo essa respostas para Freud, agora preciso ver em quais esquinas deixei meus pedaços.


Os estudos
Um deles - o desejo de estudar, me desenvolver, fazer mestrado.. - este ficou quando entreguei a monografia. Depois de me decepcionar com o professor da banca e usá-lo como bode expiatório para o meu desgosto com o conhecimento, percebi que na verdade eu via nele o monstro que já estava em semente dentro de mim - vaidade, ego, narcisismo - usando o conhecimento como algo para se auto promover e se sentir superior diante dos outros. Quando dei por mim estava fugindo para não deixar essa semente do mal florescer em mim. Logo após veio a diretora da escola, que nos oprimia com teorias pedagógicas, sem nada saber sobre a prática, desvalidando nosso conhecimento e nos impondo seu modo de pensar. Fiquei horrorizada. Não queria o conhecimento para oprimir as pessoas! Mas novamente podia enxergar em mim aquela sementinha - do autoritarismo, arrogância e opressão. Fugi como se fosse o diabo. Preciso dar outro sentido para o conhecimento, que seja livre de vaidade e arrogância. 

A liberdade
Logo me apareceu o Gabriel e vivi intensamente nossa paixão. Foi de lascar, uma delícia tudo. Mas nisso abandonei a leitura para estar com ele em todo o meu tempo livre, e ainda faço isso. Tudo o que antes eu podia fazer sozinha - ler, ouvir música, ir ao cinema, ficar pensando, resolver problemas do cotidiano - passei a fazer na companhia dele. Me sinto sufocada. Preciso urgente aprender a ser minha de novo. Fazer as coisas sozinha, me divertir sozinha, sair sozinha. É importante para o nosso relacionamento, pois logo assim estaremos fartos um do outro, sem nem uma novidade sequer! Preciso traçar alguns objetivos para isso.


A casa
Eu queria avidamente ter uma casa minha para ter liberdade. Minha casa, minhas regras. Mas, inconscientemente fiz das regras da minha casa, as regras da minha mãe, não minhas. Baixou o espírito da mulher "do lar", eu queria saber fazer tudo: fazer comida saudável, deixar a casa sempre impecável a roupa lavada e passada. Que loucura não? Antes de ter casa eu queria ter casa pra poder fazer as tarefas domésticas ao meu tempo, e não de acordo com as ordens da minha mãe. Se eu estava lendo e estava empolgante, deixa a louça na pia.. Se eu estava escrevendo algo importantíssimo no meu blog e o chão estava sujo, deixa ele sujinho até que eu termine minha ideia mirabolante... Era assim que eu pensava que seria! Mas peguei para mim as tarefas domésticas com tal afinco que só sabia fazer isso o dia todo. Agora que já comecei a desapegar - deixa a louça, manda trazer lanche, faz um miojinho - me sinto tão mais aliviada! Mas preciso ainda reafirmar isso para não esquecer.

As roupas
Antes eu fazia questão de mostrar quem eu era também pelas roupas. Já usei só preto e all star coturno, já usei roupa poperô, calça boca de sino, muitas estampas coloridas, acessórios nos cabelos, boinas então! - era a minha marca. Agora simplesmente pego qualquer peça no guarda-roupa e visto. Como se não houvesse mais nada aqui dentro que transbordasse para o exterior. A escola e o serviço braçal fazem eu vestir um uniforme todos os dias - os mesmos agasalhos e calças legues com camisetas de sempre - isso porque preciso de algo com mobilidade e confortável. Vou pra escola parecendo um mendigo, essa e a verdade. Mas isso é reflexo do que sinto sobre o respeito e valorização que tem a profissão. Preciso repensar meu guarda-roupa e minha maneira de vestir, inclusive para ir à escola. 

A falta de amigos
Ter um círculo social fora da família me faz uma enorme falta! Me cerquei de Gabriel. Não tenho com quem trocar ideias, crescer e desenvolver, além dele. Mas isso limita muito o meu mundo. Me sinto isolada. Antes socializava na escola, apesar das meninas não partilharem da mesma visão de mundo que eu ainda tínhamos momentos agradáveis de risos e conversas. Agora na nova escola não tenho ninguém, a não ser a Claudia, e não para conversar e trocar ideias, mas para se lamuriar das mesmas dores. Preciso aprender a parar de reclamar, parar de falar dos outros, e passar a agradecer mais e ajudar mais, quem sabe atraia mais pessoas pra perto de ti, né genia? É preciso estar aberto para o mundo que as coisas vem, lembra?

Minha inconformidade com este mundo
Algo que me caracterizava desde muito nova e que aprendi a dar nome na faculdade. Não me sinto confortável neste mundo vendo tanta miséria, injustiça e sofrimento. E eu sinceramente achei que poderia me esquivar desse incomodo não vendo mais tv, saindo das redes sociais e me distraindo com outras coisas - viagens, passeios... Só que não, génia. O meu olhar é sensível demais. E o pouco conhecimento que adquiri ainda me fazem crer que é possível um mundo mais ajustado. Ainda que eu não vá conhecê-lo. Este "produto adquirido" que não tem como devolver ainda me angustia de perto, como por exemplo, me lembro que preciso das o melhor para as crianças da classe trabalhadora, e no entanto me vejo num espaço degradado e pobre que também me degrada e que não posso mudar. Isso me causa uma imensa angústia. Preciso de novo canalizar este sentimento e fazer algo com ele. Essa tirinha me deu algumas ideias... "a ideia nunca morre". 



Agora, algo que ganhei, porque nem tudo são perdas.
Eu ganhei o meu cabelo! Nunca liguei de cuidá-lo, agora sou orgulhosa dos meus cachos! Eles me fazem ser mais eu! Busquei e aprendi a lidar com eles, e isso me fez muito bem.



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Era uma noite fria. Vivíamos no campo, eu, minha mãe e meu irmão. Ele era cruel comigo, se sentia meu dono desde que nosso pai havia morrido...