Hoje pensando sobre um novo texto para o blog, eis que ouço uma gritaria vindo da rua lateral do prédio onde moro, rompendo com a típica tranquilidade das ruas de cá. Era um linchamento. Não deu para entender exatamente o ocorrido, algo como um ladrão (de quê, não sei) que foi pego no pulo. Só foi possível ouvir os muitos gritos e ver vários homens atacando ferozmente o dito meliante. Eu fiquei assustada e peguei o telefone para chamar a polícia, afinal, eu não iria ficar assistindo o espancamento e, quiçá, até o assassinato de alguém, do camarote da minha varanda. Não sou dada a esse tipo de espetáculo. Mesmo que as chances da polícia chegar a tempo de intervir fossem mínimas.
Já não fosse suficiente o desconforto da situação, para o meu horror, começo a ouvir uns gritos vindo de meu próprio prédio, mais especificamente do apartamento logo acima do meu. BATE MESMO. SAFADO, TEM QUE APANHAR. ISSO MESMO. SOCA ELE. BANDIDO TEM QUE APANHAR. BATE MAIS.
Dou uma pequena espiada para cima e encontro uma senhora com seu filho de, se muito, uns 6 anos, berrando entusiasmadamente em apoio à cena animalesca. Imediatamente peguei o telefone e informei a polícia, com aflição ainda maior. Então que ouço novos gritos, direcionados dessa vez, não tenho dúvidas, à minha pessoa, já que fiz o telefonema da janela. TÁ COM DÓ LEVA PRA CASA. DO TRABALHADOR NINGUÉM TEM DÓ. PAI DE FAMÍLIA NINGUÉM DEFENDE. Repedidas vezes.
Ok, vamos do começo. Primeiro, sim eu já fui assaltada, sofri uma tentativa de sequestro relâmpago e tive a minha casa (dos meus pais) invadida e furtada não uma, nem duas, nem três vezes, mas umas cinco, pelo menos. Sim, é revoltante. Dá raiva. Dá vontade de matar um. Eu mais do que ninguém entendo essa vontade. Nos sentimos violados, invadidos, injustiçados. Afinal, trabalhamos duro para conseguir qualquer coisa que tenhamos. E quando alguém nos tira à força ou sorrateiramente é muito frustrante. NO ENTANTO, pagar a violação do nosso direito à propriedade, ("coisas" diga-se de passagem) com a violação do direito à vida de alguém (bandido bom é bandido morto) é algo um tanto brutal e desproporcional. Chega a ser irracional achar que pode-se "consertar" a violência com mais violência. Seria como querer tratar uma intoxicação por veneno com mais veneno. Combater um crime com outro crime. Eu sei que nossa justiça é falha. Mas eu sei principalmente que a nossa sociedade é cruel. Eu não justifico o roubo, mas dentro de determinado contexto eu compreendo suas motivações. E o fato é que não somos juízes e todos temos o direito à defesa. Negar o direito à defesa de um é permitir que se tire o direito à defesa de todos.
Algo importante a saber é: a violência não combate o crime. O crime é fruto da violência. São violências institucionais, legalizadas, são sutis porque se transformaram em hábito. Trens lotados são violentos. Escolas sem professor ou superlotadas são violentas. A falta de hospitais e de médicos é violenta. A ausência de espaços de esporte, lazer, cultura é violenta. Aliás, onde não há cultura, a violência vira espetáculo. A falta de emprego, de moradia, de remédio são violências sem tamanho. A cultura do consumo que bombardeia nossos jovens e crianças é violenta. Por que então, eu me pergunto, nós nos revoltamos com uma violência e não com as outras? Por que uma nos desperta tão intensamente essa vontade de fazer justiça, enquanto para com as outras somos tão complacentes? O trabalhador perde seus direitos e as famílias se vêm esmagadas diante de uma cidade que não lhes oferece assistência e, no entanto, votamos no Dória, parceiro daquele que nos deixou sem água e fechou nossas escolas, apenas dois destaques dentre tantos roubos cometidos contra nós por eles. Quem se revoltou? Eles roubam nosso direito à vida, à saúde, à educação e nós os elegemos. O outro nos rouba "coisas" e nós o queremos morto. De certo modo estamos a dizer que pouco valem nossas vidas diante de nossas coisas.
Sinto um imenso pesar e não compreendo de modo algum essa lógica. Será possível ser tão difícil enxergar as coisas? Será tão difícil pensar com alguma autonomia e senso crítico antes de ficar repetindo frases prontas? Aliás, essa superficialidade das idéias e opiniões também são frutos de uma educação e cultura defasada, mais uma vez violências...
Uma sirene foi ouvida à alguma distância dali, e os pais de família que ali estavam a linchar o garoto voltaram às suas casas e famílias de bem.
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