sábado, 29 de outubro de 2016

Vamos às verdades!

Ok, preciso falar agora as verdades sobre a Travessia da Ponta da Juatinga que fiz recentemente.

Porque nem tudo são flores e isso é fato que todos sabem, no entanto num texto de agradecimento e divulgação do trabalho da Mantra Adventure, que recomendo com toda a honestidade, não poderia conter os detalhes sórdidos da minha aventura.

Bem a começar pelo início...

Estava eu num período de pleno engajamento com o desafio de me reencontrar, e um dos passos era resgatar minha autonomia, minha auto confiança e independência. Claro, porque, lugar de mulher é onde ela quiser! Aproveitando a deixa... rs

Só para esclarecer, eu já conhecia a Laila e já havia feito alguns passeios com a Mantra. Eis que apareceu o Mochila de Batom na minha time line com a proposta da travessia apenas com mulheres. UAW, era o que eu precisava! Que incrível! Passeio ruts. Camping. Eu, uma mochila, uma caminhada de três dias, num paraíso perdido... Era tudo o que eu queria! Simplicidade, natureza, ah!...

Ok, falei com a Laila e fiz o depósito. Se eu já tinha feito trekking? Noum. Se conhecia as outras mulheres. Hã-hã. Eu tinha os equipamentos necessários. Oi? Nem mochila cargueira. Mas eu tinha um tenis de trilha, o que já me fez sentir imensamente preparada para tal empreitada - lógico que até ver a lista dos itens necessários ao passeio. 

Anorak, saco estanque, clorin. Heim? Foi preciso fazer um estudo de campo só pra descobrir o que eram essas peças. A Laila muito sabiamente ofereceu uma palestra sobre a travessia para os desavisados, digo, iniciantes como eu, incluindo uma aula sobre os itens indispensáveis e como montar a sua mochila. Nossa! Saí de lá confiante!

Por volta de duas semanas antes do passeio fui à decathlon com minha modesta listinha de compras. MANO, dava pra sustentar uma família por mais de mês com o que eu gastei naquela loja!!! Economizando, viu??? Mochila cargueira, saco estanque, anorak, flece, isolante térmico, saco de dormir, clorin, segunda pele, lanterna de cabeça, lanterna pequena, apito, APITO, isso mesmo. Eu só ficava imaginando porque aquele apito era item obrigatório, mas, ok.... apito, camisetas de tecido sintético, cantil... Fora a alimentação que não estava inclusa e COMO SÃO CARAS essas comidinhas especiais para camping/trekking. Fiquei no clube social mesmo, já tava de bom tamanho. Simplicidade, natureza...sei. $_$

Um pouco desconfiado, meu querido Ga, querendo me ajudar, chegou entusiasmado porque havia comprado uma super lanterna pra eu levar... Olha, ela pisca, fica vermelha e você pode por isso aqui - e sacou um cilindro de plástico do tamanho de uma régua e rosqueou na lanterna - que vira um sinalizador!!! Aí se vc ficar perdida, a noite, no meio da mata, é só vc sacar essa lanterna e.... eu fico parecendo um personagem do starwars com aquelas espadas iluminadas! 

Meu zeus, o que as pessoas imaginam que pode acontecer num passeio desses??! Imagine! É seguro... pensei eu.

Tudo comprado, que beleza! Eis que começa minha angústia. Como fazer caber tudo isto na mochila?! Aperta daqui, ajusta dali. UAW, isso deve tá pesando uns 12 quilos. DOZE quilos, eu peso 45, só pra constar. Uhn, talvez posso tirar uma calcinha, ou uma barrinha de cereais pra ficar mais leve... A mochila ficou quase maior que eu.

Onde vai parar minha coluna nessa brincadeira, eu só pensava comigo... Começou bater um arrependimentozinho bem pequenininho....

Chegou o grande dia, o Ga me levou na rodoviária, encontrei logo com a Agda, que também iria fazer a travessia  - só pra constar, a minha mochila cabia duas da dela dentro , o que já me deixou um pouco apreensiva - e fomos juntas no ônibus papeando sem parar. Ela, prevenida, tomou o seu dramin e eu me vangloriei de não passar mal em viagens de ônibus e... Já sabe né? Vomitei o que eu nunca tinha vomitado em viagens de ônibus na minha vida...

Já em Paraty, encontramos algumas outras meninas que fariam a travessia conosco, e na pousada onde passaríamos a primeira noite, a Laila verificou as mochilas para ver se estava tudo ok e se ninguém tinha exagerado. Eu só tinha levado o essencial, claro... shampoo e condicionador? É luxo, tira. 4 calcinhas?? Só duas. Três camisetas é luxo, só duas. Shorts você não vai usar, tira. Todinhos??? Tira. Tira. Tira. Tira. Enfim, dois quilos pelo menos ficaram para trás. Ainda assim 10 quilos me pareciam o mundo inteiro quando eu colocava nas costas. Será que vou aguentar essa mochila??

A resposta não demorou muito a vir. 

Já no primeiro dia de travessia, em Pouso da Cajaíba, onde iniciamos nossa caminhada, na primeira subida já amaldiçoei o dia que eu decidi fazer aquilo. A Laila que me perdoe, mas eu xinguei até a décima terceira geração dela!

 Me faltava ar, as minhas pernas sentia forçar cada músculo até seu limite, eu suava e não conseguia acompanhar o ritmo das demais. O peso da mochila tirava todo o prazer da caminhada. Eu me sentia sufocada. Fui ficando para trás e me remoendo "porque estou fazendo isso comigo?! Isso não é diversão é tortura! Como sou imbecil, porque não fui pra um resort com o dinheiro que gastei na poha dessa mochila ?!! Oh deuus, porqueeee????? Com tantos avanços tecnológicos no mundo eu estou aqui carregando esse peso nas costas feito um burro de carga! E chamam isso de passeio??? Alguém manda chamar um helicóptero que eu quero ir embora AGORAAAA, BURRA BURRA BURRA!!!!!"

E foi amargamente arrependida que, para meu alívio, chegamos na primeira praia: Martins de Sá. Toda minha raiva foi embora com a beleza daquela praia, com o banho de mar gelado e a balança na árvore. Pelo menos recompensou o esforço, pensava eu, mas já preocupada com a segunda caminhada até nosso camping... Uma meditação na areia, um almoço gostoso e, oi? O que eu ouvi? Alguém disse barqueiros? Eu ouvi direito? Barqueiros levarão nossas mochilas até nosso próximo ponto de parada?? Tá brincando?!

Geeennte, deus existe!!! Ele ouviu as minhas preces!!! Quase chorei de emoção! E alívio. Juro.

Agora sim! Agora sim seria um passeio! Ufa! Sem a mochila nas costas a minha agilidade era outra!! Pulava, subia, descia, saltava. Parecia uma criança acostumada a andar no mato. Ia acompanhando a Laila, na frente do grupo. Agora sim eu curtia a paisagem. Agora sim eu ara capaz de observar o canto dos pássaros, de admirar a beleza da floresta! Agora o passeio começou! Fala, o que não é o pensamento forte heim??? rs Ai me senti agradecida. Agora sim, todo o resto que relatei naquele texto é real. Curti muito. Mesmo sem as mochilas enfrentamos diversos desafios. Um ataque de vespas furiosas que nos deixaram alguns ferrões de lembrança, muita chuva, o mar muito agitado...


E também posso dizer que valeu cada centavo que gastei em todas aquelas coisas, pois usei tudo e cumpriram muito bem suas funções. Mas devo esclarecer que esse tipo de viagem - com mochilão, camping, sem luxo -  não é necessariamente barata, e nem está a disposição de todos, pois tem seus custos e não são baixos. É realmente para quem gosta de se desafiar e de estar em contato com a natureza de maneira mais direta. E se me perguntarem se toparia de novo um trekking nesse estilo, vou ser bem sincera, da próxima eu penso duas vezes. Não pela caminhada, pois descobri que amo andar e posso andar por quilômetros tranquilamente. Não pelo camping, gosto de dormir em barraca, não me incomodo com banhos frios e realmente o shampoo não foi necessário, não morri por não lavar o cabelo por três dias. Mas sim pela mochila. Foi aterrorizante pensar que teria que carregar aquela mochila por mais dois dias e vários quilômetros! Eu não sei se aguentaria. Preciso começar de novo de modo mais leve. Mas não desisti, afinal a minha mochila foi muito cara para ficar no armário! Espero logo em breve ter novas aventuras, para, quem sabe, me reconciliar com ela!


Enfim, apesar de suas verdades, a travessia cumpriu com o esperado - voltei me sentindo mais forte e capaz, mas além disso, descobri que não posso negligenciar as coisas que me dão prazer - e explorar a natureza é uma delas. E observar as dificuldades com bom humor também faz parte desses passeios, porque sempre haverá imprevistos e surpresas! Mas o mais importante é que sempre rendem boas histórias! Nem todas elas românticas, algumas cômicas, mas todas boas histórias!

P.S: Engraçado é o espanto das pessoas ao verem eu indo viajar sozinha, sem o "marido". E ele deixou? - me perguntavam. Eu apenas repetia a resposta que sabiamente o meu amor deu ao ser questionado - se eu não deixar outro deixa, né?  Deixando as pessoas admiradas pela sacada e por seu despojamento rs. I love it.


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