domingo, 13 de novembro de 2016

ENEM vai rolar universidade pública...


Quando me vi na loucura de querer mudar de emprego a qualquer custo (vide início do blog) eis que me inscrevi para prestar o ENEM, a fim de pleitear uma vaga na graduação de alguma universidade pública. Filosofia ou Ciências Sociais, quem sabe? Primeiro, porque muito me desanimava a ideia de fazer um mestrado na área de educação (ideia essa que já está mudando rs) e depois porque não custava nada tentar o exame e, no final das contas, estudar é sempre bom.

Os dias passaram, meus conflitos existenciais já se mostravam menos afoitos, mas a inscrição já estava feita e chagava o grande, imenso, interminável, diga-se de passagem, dia. Meus planos de estudar durante os meses que antecederam o exame ficaram só no papel, e, não fosse a vergonha de perceber que nem mesmo uma conta de dividir com vírgula eu sabia, nem matemática eu teria estudado, e bem pouco, inclusive. Eu, pós-graduada, não sabia matéria do ensino fundamental quando se tratava de números. Apostei no meu frouxo saber em humanidades e português e lá fui eu. 

Uma atrasadinha para não perder o hábito, mas nada ao ponto de virar meme. Engolido um hotdog já na porta da sala, vamos à prova. A prova à prova de tudo, aliás, porque a organização do ENEM não fica atrás de uma organização paramilitar. Policiais armados, detector de metal, vistoria dos pertences, vigilantes por toda a parte... Parecia que estava entrando numa penitenciária de segurança máxima. Nós, os delinquentes do Brasil, cometendo o crime de tentar um lugar ao sol. Tudo culpa desses malditos petistas, querendo socar pobres e delinquentes nas universidades, que audaciosos! Mas isso não vai ficar assim....

Voltando ao que interessa: a prova. Eu lia perplexa a primeira parte: humanidades (filosofia, sociologia, história e geografia). Eu lia cada pergunta e pensava indignada para quem havia sido redigida aquela prova... Eu lia, mas sabia que só lia porque foram anos lendo na faculdade, na pós e depois. Eu lia e a sensação que tinha era de pesar. Está errado. Essa prova não foi feita para que eu, afeita a sociologia e filosofia, soubesse respondê-la, mas para um jovem que ainda vai começar sua vida acadêmica, ou, pelo menos, está tentando. Aliás, uma tentativa que tende a ser bem frustrante, visto a dificuldade do exame...

Em qual mundo Brasil, eu me pergunto, um estudante de ensino médio sabe sobre Durkheim?? Shopenhauerseiláoquê??! Nietzsche??

Sobre Nietzsche eu vou lhes contar uma estranha coincidência. Em meus idos anos de graduação comprei um livro do Nietzsche, Assim falava Zaratustra, porque na minha inocência queria saber tudo de filosofia e de tanto que ouvia esse nome considerei importante conhecê-lo. Li as primeiras páginas, em meus 18 anos, e tudo o que entendi foi que ainda não tinha conhecimento prévio o suficiente para compreender aquele livro. Me parecia outra língua. Nada fazia sentido. Abandonei a leitura. Exatos 9 anos depois, após selecionar alguns livros para ler para tentar lidar com minhas crises de ansiedade, peguei o livro "Tudo o que é sólido desmancha no ar", de Marshall Berman. Neste livro ele citava Nietzsche e eu lembrei que o deixara guardado ali em algum lugar... Li sem nenhum problema, fora o tom conservador e machista do livro, a leitura correu com tranquilidade, apesar de um pouco entediante. E me surpreendi, veja como precisei de uma bagagem teórica e de certa maturidade para ler e entender esse livro! E esses foram os únicos livros que li durante esse ano....

Preciso contar o que caiu no ENEM? Justamente esses dois livros. Livros que precisei de muitas leituras, conversas e toda uma base que não se adquire em três anos de ensino médio. 
Saí da prova pensando eles estão nos enganando... O ENEM não é uma oportunidade. É mais um vestibular com o mesmo toque de crueldade que tem todo e qualquer vestibular. Ele não é para os filhos da escola pública. Ele é para a elite que pode pagar fortunas em escolas de alto nível e cursinhos que custam o olho da cara. É para aqueles que podem se dedicar integralmente e entregar suas vidas ao estudo, não tendo que se preocupar com qualquer outra coisa. 

Definitivamente, ele não é para aqueles de escolas sem professores, de salas superlotadas, falta de material básico, professores mal remunerados e sem incentivo. Infelizmente essa é a realidade de muitos alunos que prestaram esse ENEM, talvez, da maioria deles. Fora a tensão psicológica, o teste de resistência física que é dois dias de prova, cada um com cinco horas de duração. Chega a ser desumano e humilhante. Eu, que estava lá meio que de gaiato, fiquei nervosa, o coração disparou e precisei recorrer à respiração para conseguir me acalmar e terminar a prova, ficava pensando nesses meninos, tão jovens e imaturos. Humanamente pensando não faz nenhum sentido que se passe por isso só para poder estudar e aprender! Massacramos a nossa juventude e depois não queremos uma sociedade violenta e distorcida. 

Para além de me indignar, esse ENEM também serviu para me convencer que talvez um mestrado em educação não é assim tão mal... já que foi a opção que me restou, talvez seja bem válida rs.
E, ademais, juventude do meu Brasil, lhes resta OCUPAR e exigir seu direito à universidade pública para todos.



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