segunda-feira, 18 de julho de 2016

Profissão e a Escola

Talvez esteja chegando a hora de escrever sobre aquilo que me é mais dolorido. A minha profissão.


Vou forjar novos significados. Começando com uma lista de coisas positivas.

A primeira coisa mais positiva nisso tudo é o fato de eu TER uma profissão, uma formação, e TER um emprego. Isso é certamente melhor do que não ter nada. Esse emprego que me possibilitou muitas coisas, uma delas é estar agora digitando esse texto do MEU apartamento. Esse trabalho me deu independência financeira e autonomia. Ele foi e está sendo uma ponte necessária. Preciso me lembrar disso e agradecer.
EU TENHO UMA PROFISSÃO E UM TRABALHO, OBRIGADA.

Passar no concurso foi uma vitória. Provei a mim mesma que sou capaz de fazer as coisas acontecerem. Provei que sou capaz de me esforçar, disciplinar, abrir mão de outras coisas em prol de um objetivo maior. SOU CAPAZ DE ALCANÇAR MEUS OBJETIVOS.

A jornada de 28h semanais é um privilégio. Usufrua dele. Aproveite esse tempo livre, de que as outras pessoas não dispõe, para utilizá-lo a seu favor. Agradeça por ele cuidando da saúde, do corpo, da mente e trabalhando em seus projetos. A organização do tempo faz com que ele renda muito mais. Discipline-se. Não se entregue à preguiça. Não é o seu trabalho que está te matando, mas a preguiça que faz com que você desperdice seu tempo livre em pensamentos inúteis, dormindo além do necessário ou reclamando,  lamentando e pensando em quanto o seu trabalho é ruim. Enquanto isso, passa o momento presente, e você perde a oportunidade de fazer algo de que realmente goste, perde o tempo de ser feliz agora. Daí que você é infeliz duas vezes, dentro e fora do trabalho. PARE DE LAMENTAR O QUE ESTÁ AÍ. ACEITE E CONDUZA A SUA ATENÇÃO PARA AQUILO QUE REALMENTE IMPORTA. Fique atenta aos seus pensamentos. Não permita que os pensamentos te dominem. Eles são uma armadilha. Observe-os. Registre-os. E deixe que eles se vão. Se concentre por um momento em sua respiração, que é algo de mais sagrado que está acontecendo exatamente neste momento e agradeça. A respiração é a força vital do organismo e ela nunca para de acontecer.

"Lembre-se que a respiração está sempre disponível para trazer você de volta ao momento presente quando sua mente estiver dispersa pela correria da vida. Ela sempre está presente como uma âncora no fundo do seu ser, num lugar de quietude e paz."

Se me sinto desvalorizada na profissão, talvez seja porque eu a desvalorize. Não compare a sua profissão com as outras. Estamos na sociedade do mundo ao avesso. Sei disso. Por que então me iludir pensando que a valorização profissional do professor deve passar pelo julgamento dessa sociedade doente? No capitalismo, nada que seja humano é valorizado. E quer profissão mais humana que cuidar e ensinar seres humanos a tornarem-se humanos? Não se importe com o que os outros pensam. O que eles pensam é problema deles. Você apenas deve saber o valor que existe na sua profissão. Se os outros não compreendem, tudo bem, cada um entende aquilo que pode.

Lembre-se que no seu trabalho, a única coisa que realmente importa, são as crianças. Lembre-se sempre: elas não tem culpa. Elas são só crianças. Se são muitas, elas não tem culpa também. A culpa é do governo, mas o que vai adiantar te prender a isto?? Tá, a culpa é do governo, governo mal, te odeio. E agora?? Diminuiu o número de crianças?? Não né? Continuou o mesmo, certo? Só aumentou o seu mal estar saber que nada pode fazer quanto a isso. Então não perca seu tempo se lamentando do governo que não se importa com a qualidade da educação, apenas aceite o fato de ter muitas crianças na sala. Aceite e volte sua atenção para o que importa: as crianças.

Faça o mesmo com a falta de material e a péssima estrutura da escola. Reclamar não vai mudar. Só vai te entristecer e deixar ansiosa. Aceite as coisas como elas são, sem querer mudá-las, sem lamentá-las, sem compará-las. Deixe o passado no passado. Este já foi, não volta mais. O que você tem hoje é isto, se é bom ou ruim não se concentre nisso, apenas aceite os fatos e continue. QUANDO PERCEBER UM PENSAMENTO DE LAMENTO OU DE COMPARAÇÃO COM O PASSADO, DEIXE ELE PARTIR, APENAS ACEITE OS FATOS E SE CONCENTRE NO QUE É IMPORTANTE AGORA. PERCEBA O QUE ESTÁ FAZENDO E CONCENTRE-SE NISSO.

Me sinto frustrada com o trabalho braçal, pela demanda do cuidar ser muito superior que a do educar. Não adianta aquela velha história de que cuidar também é educar. Esquece. Isso não me convence. Mas o fato é: o trabalho braçal, o cuidar, é muito maior do que o pedagógico. É isso e ponto. Aceite. Aceite que você vai lá para passar mais tempo limpando, trocando, higienizando, cuidando do que educando, fazendo projetos pedagógicos, atividades, etc. PARA DE SE ANGUSTIAR COM ISSO. Não se cobre tanto. Apenas o necessário. A prioridade é o cuidar, não tem como escapar disso nessa escola. Se conforme. Faça isso sem se lamentar, sem reclamar, faz parte da sua profissão (lembra que bom que vc tem uma profissão!), e nem tudo tem que ser bom, belo e do jeito que você quer. As coisas não tem que ser como você quer. Aceite este fato. Tudo o que é bom também tem um lado ruim, nem tudo são flores, flores tem espinhos e educação infantil tem o cuidar, que você não gosta, mas tem e não vai deixar de ter, então se conforme. E faça esse cuidar de modo sensível, lembre-se: são crianças, elas não tem culpa disso. Lembre-se: são crianças e devem ser tratadas com respeito. Elas merecem isso. Não são animais. Se o governo as trata dessa forma você não pode reproduzir isso em escala menor. São crianças. São seres humanos. Merecem respeito, educação e gentileza. Mantenha a calma. Se estiver muito agitado, respire, concentre-se por um minuto. São crianças e não tem culpa. Mantenha o seu interior imune à algazarra exterior. Continue o que estava fazendo com sensibilidade, delicadeza e atenção, elas precisam e merecem isso. Não faça igual ao governo de que você reclama. Tenha calma. São crianças. Vão se sujar, vão fazer arte, vão fazer xixi e coco na roupa. Mas isso é normal, porque são só crianças, estão aprendendo e sua função é ensinar com paciência e compaixão. Não se sinta frustrada, faz parte do seu trabalho, você está lá para isso, faz parte da sua aprendizagem e é necessário para você avançar. Essas coisas podem e vão acontecer. Desista de manter tudo sob o seu controle. NÃO TEMOS O CONTROLE DE NADA. Desista. São crianças, são seres humanos, eles são imprevisíveis, e ainda não aprenderam muitas coisas. Vão fazer bagunça, vão gritar, vão correr, não vão te obedecer. Mas tenha calma, isso é normal. Não perca o seu controle. Seu interior é sereno. Não grite. Tenha paciência e compaixão. Peça ajuda se achar melhor.

Mas os pais não reconhecem o nosso trabalho, nos tratam como babás, são folgados, acham que mandam na escola. Respira. Se os pais pensam que vocês, professores de CEI, são babás, lembre-se que o que eles pensam é problema deles. Você não é babá. Não é. Você deve estar ciente disso. Você não é babá e nem empregada deles. Você é uma educadora, uma pedagoga, uma professora de educação infantil. Ponto. Se os pais pensam qualquer outra coisa, deixe que pensem, afinal, cada um pensa e entende as coisas como pode. Trate você de se portar como uma professora, ter atitude e pensamento de professora. O que é ser professora de crianças pequenas? Pense melhor sobre isso. Se os pais não valorizam, lembre-se que estamos na sociedade do contrário que ensina as pessoas a valorizarem outras coisas, que não o ser humano. Não é culpa delas. Aceite o fato de que alguns pais (alguns, porque certamente não são todos) não vão te valorizar, vão te ver como babá, apenas aceite, pois é um equivoco deles, e eles não tem culpa, e volte sua atenção ao que realmente importa: as crianças. Não se sinta subjugada por eles. Lembre-se que você não é melhor nem pior que ninguém. Estamos todos no mesmo barco. Mas não se esqueça do quão privilegiada você foi e é, para estar aí. Pense e agradeça que você pôde estudar e hoje consegue enxergar as coisas de determinado modo. Pense em quão você foi e é amada. Pense que privilégio é ter todas as suas necessidades  humanas supridas. Lembre-se de que isto não acontece com todos. E muitas vezes eles descontam suas faltas e frustrações em nós. Respire. Trate todos com respeito, seja agradável, solícita, apenas não permita que lhe tratem com falta de respeito. Não retruque. Observe. Haja serenamente. Não permita que a confusão alheia te perturbe. Você tem paz interior, transmita isso, agindo de forma serena.

Viu como parece que você está é muito mais preocupada com o que os outros pensam da sua profissão do que com a profissão em si?

Você não é melhor nem pior que ninguém. Você deve querer sair da profissão não por ela ser ruim ou não ser valorizada às vistas dos outros, nem porque acha que é indigna, e muito menos por você se achar melhor do que aqueles que nela estão. Menos ego, por favor. Você não é superior a ninguém que ali está. Se quer sair é porque acredita que tem potencial para fazer outras coisas também. E não fazer outras coisas por que os outros valorizam mais essas outras coisas, mas porque você tem outros potenciais e deve desenvolvê-los para se sentir plena e feliz.

Você não está no lugar errado. Está exatamente onde deveria estar. Cada coisa tem o seu tempo. Você não está numa corrida. Por mais que te façam acreditar nisso. Você não está competindo com ninguém. Apenas faça da melhor maneira que pode fazer.

Você está no lugar certo. Sua escola atual é exatamente onde você deveria estar agora. Não, isso não é resignação, conformismo. Isso é resiliência. Agir positivamente diante das adversidades da vida. Aprender com e superar as dificuldades. Saber que tudo na vida passa. Eu estou onde deveria estar. Primeiro porque, caso não estivesse em uma escola tão ruim, levaria mais tempo para notar o quanto eu estava indo contra a minha natureza. A escola me colocou em contato, de novo, com coisas ruins que existem dentro de mim. E isso me apavorou. O ego, a vaidade, a ansiedade, a falta de amor próprio, a insegurança. Com o surto tive a possibilidade de me conhecer melhor. Olhar para dentro de mim e me reavivar. Perceber o quanto eu estava agindo de modo nocivo à mim mesma. Possibilitando assim tomar o rumo correto, tomar as rédeas da minha vida, acertar as velas, o quanto antes. Agradeça pelo tanto que aprendeu e pela grande mudança que graças a essa escola você pôde fazer em sua vida e em você. Você estava perdida e agora recupera-se aos poucos. Recuperou seu ânimo, sua determinação, seus projetos, seus prazeres. Aprendeu o quanto a meditação e a yoga te fazem bem e são necessárias para a sua vida. PERCEBEU A TUA FORÇA INTERIOR. Talvez não aprendesse nada disso e continuasse a levar uma vida desconfortável se estivesse numa escola confortável. Quanto tempo levaria para perceber o quanto não ia bem? E não se esqueça que você se preparou por anos para enfrentar esses tempos difíceis, guardando tudo o quanto podia de materiais velhos, para "um dia, se eu for para uma escola ruim...". Viu? Eu me preparei, a vida me deu. Parabéns Lei da Atração. Apenas aceite. Não, não foi um equívoco. Você está onde deveria estar. As coisas não tem que ser como você gostaria que fosse. Os seus pensamentos ruminantes não vão mudar a forma das coisas, apenas vão mudar a forma como você se relaciona com elas, de modo positivo, tirando algum proveito e alguma aprendizagem, ou negativo, se afundando num redemoinho de angústia, arrependimento, frustração, raiva, até adoecer. Goste da sua escola, fique feliz por ela, fique feliz de estar ali, fique feliz de estar fazendo a sua passagem por ela, porque só assim você está aprendendo e se preparando para a vida. Entenda como a escola foi um impulso para a vida pra você, foi um sinal, foi um empurrão da vida. Foi a vida te chacoalhando dizendo - vai, filha, faça alguma coisa! Agradeça esta oportunidade. Agradeça este empurrão, este chacoalhão. LEMBRE-SE SEMPRE O QUÃO BOM FOI TER IDO PARA ESSA ESCOLA. Dito isto, agora vamos nos preparar para coisas melhores? Para dias felizes e trabalho que te faça sentir bem? Vamos? Obrigada.



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