quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Busquei por esse tempo observar atentamente o que se passa comigo. Observar com mais cuidado as sensações, os sintomas, o que os antecede e o que vem depois. Eu estive todo esse tempo buscando por padrões, pra poder de alguma forma ordenar de forma racional essas vivências. Chegou a alguma conclusão? Você deve estar se perguntando. Bem, posso dizer que não cheguei a uma conclusão acabada, mas observei alguns pontos importantes.


Primeiro busquei observar se esses fenômenos estariam sempre presentes em momentos de ansiedade. Esta era a minha principal hipótese. Pois, não. Notei que eles acontecem na ansiedade, mas também acontecem quando ela não está presente, quando estou mentalmente equilibrada.

Observei que sensações como palpitações, suor nas mãos, arrepios, tremedeira, vontade irracional de chorar, entre outras coisas, aconteciam fortuitamente, sem que eu estivesse passando por qualquer situação estressante, sequer com a mente ansiosa ou agitada. Ah, sim, eu realizei inúmeros exames e consultei um bocado de médicos para saber se possuía alguma causa física, mas todas as hipóteses foram descartadas, fisicamente eu estava em perfeitas condições.

Eu também tentei os remédios psicotrópicos. Se fosse ansiedade ou algum tipo de psicose, a questão se encaminharia para a resolução. A descoberta que fiz foi que eles não minimizavam em nada a frequência dos fenômenos, apenas reduziam minha ansiedade diante deles. Então, antes, diante de alguma percepção de alteração física/ corporal, ou visões ou audições, eu entraria num estado absoluto de pavor que desencadearia uma crise de pânico. Com a medicação o medo e a ansiedade deixaram de ser uma questão central nesses momentos. Então eu me torno capaz de sentir, observar e questionar a experiência sem me desesperar. 

Ah, sim. Um fator fundamental para o meu não diagnóstico de transtorno mental é justamente esse: não perder a capacidade de analisar e questionar a situação. Em nenhum momento deixei de questionar se aquilo que me aparecia era fato ou era coisa da minha mente. No transtorno psicótico o paciente se torna  incapaz de realizar a crítica do real, pois há uma ruptura, uma desintegração da psique. Apesar das experiências, minhas estruturas psíquicas continuam integradas e intactas, segundo minha psicóloga, mesmo durante ou logo depois de uma experiência.

Outra coisa que observei foi que essas experiências surgem em ondas. Elas despertam de um momento para o outro e se tornam muito intensas rapidamente. Ainda que eu esteja mentalmente bem, elas surgem, então tenho todos os tipos de fenômenos possível, ouço, vejo, sonho, sinto, entro em estados de transe involuntário, despersonalizo, sinto presenças, tenho diálogos com quem não vejo, coisas se movimentam ligam/desligam/tocam/caem/abrem sem uma explicação plausível. Sinto toques na minha pele, sinto cheiros que não existem no ambiente. Fico aérea, como se estivesse perdendo a ligação com o meu corpo e com o aqui e agora. Tenho sonhos vívidos sobre acontecimentos futuros que acabam acontecendo de fato, coisas impossíveis de ter acesso, pois dizem respeito não só a minha pessoa, mas a pessoas que não são de modo algum do meu convívio. Ao dormir me sentia me deslocando do meu próprio corpo, imaginava que estava morrendo e me desesperava. 

É enlouquecedor, mas como eu disse, vem em ondas, então, vai diminuindo aos poucos até parar completamente e eu ficar semanas sem sentir nada. Dificilmente eu passo um mês inteiro sem nada do tipo, mas acontecem numa intensidade e frequência bem menores, até que venha outra onda. Interessante observar que cada onda vinha de forma cada vez mais forte.

Notando que os remédios não resolviam de fato a questão, depois de muitíssima resistência, mas não aguentando mais viver esse tormento, resolvi que me abriria então para as questões do, digamos a princípio, "sobrenatural". Comecei a estudar, ler, pesquisar, conversar com pessoas do meio espiritualista (kardecistas, pessoas de terreiro, espiritualistas independentes, inclusive médicos, psiquiatras, cientistas e até um juiz). O que essas pessoas tinham a me dizer? Você é médium, bem vinda ao clube. Estude, eduque sua mediunidade que vai ficar tudo bem. Eu cansei de ouvir isso. Mas resolvi que precisava pelo menos tentar, ainda que eu estivesse cética, continuar convivendo com aquilo não era mais uma opção. 

Então, pedi para uma pessoa de confiança que me instruísse nesses caminhos, me ensinando o que fazer diante de cada experiência. 

E o que eu aprendi com isso foi que, às vezes, a eficácia vale mais que a evidência. Foi seguindo as orientações de um espírita kardecista que passei a conseguir controlar e direcionar de acordo com a minha vontade os fenômenos. Passei a ter controle sobre o que eu permito sentir, e com quem vou interagir. Quem? Você disse quem? Sim, isso mesmo. QUEM. Aqueles que muitas vezes eu não vejo mas sinto e ouço perfeitamente. 

Eles tem cheiro, trazem sensações físicas distintas, são jovens, velhos, sábios, sofredores, homens e mulheres. Espíritos sofredores, perdidos, ou que só querem conversar, encaminho ao centro espírita ou aos terreiros. Os que só querem assustar, dou um basta mostrando que sei do que se trata e que eles não vão me por medo. O alívio é imediato. É físico. É impressionante. Se é algum amigo espiritual, mentor, guia, anjo, eles se identificam, não com nomes, mas com sensações, e então batemos um papo, eu questiono, eles respondem sem meias palavras, goste eu ou não. Eles vem quando eu peço? As vezes sim, as vezes não. Mas quando preciso de verdade eles aparecem, mesmo que em sonhos.

Se é tudo construção da minha mente, da minha cabeça, isso já nem importa mais, o fato é que me comunicar com eles e deixar claro que eu que estou no controle, fez toda a diferença, de modo que todo aquele sofrimento mental e físico se reduzisse drasticamente. Não que não seja um desafio. Óbvio que sim, estar sempre atento e vigilante, saber distinguir o que é seu do que não é, resistir ao medo do desconhecido, aprender sobre os mecanismos dessa comunicação, tudo isso é um desafio constante e que vai me acompanhar pela vida a fora, não tenho dúvida. 

Como essas experiências e comunicações acontecem de modo puramente subjetivo, não há como eu ter evidências de que não são apenas produções mentais de uma mente inquieta, imaginativa, fantasiosa, ainda que os conteúdos muitas vezes fujam totalmente do meu universo. No entanto, conduzir tais fenômenos por meio das orientações espíritas/espiritualistas (confesso que guardo certo ranço do kardecismo, mas isso fica para outro post, pois não posso negar o quanto suas orientações foram eficazes...), não apenas reduziu meu sofrimento diante delas, como, talvez ainda mais importante, fez com que muitas dessas experiências se tornassem significativas.











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