Ando me sentindo um pouco estranha nos últimos dias. Tem uma agonia dentro de mim que não consigo identificar. Na verdade eu posso identificar, só resisto um pouco. Nessa madrugada eu sonhei que estava numa rua escura e podia ver tantos espíritos e tão nitidamente que era incapaz de dizer quem era vivo e quem não era. Acordei sendo empurrada por um deles. Empurrada literalmente, que por pouco não caio da cama. Eu sentia nitidamente onde ele me tocou, como se tivesse realmente havido ali um contato físico brusco. O quarto estava agitado. Eu sentia arrepios. Eu estava agitada. A minha mente estava agitada. Essa sensação me desagradava. O Álvaro chorou, me levantei rapidamente, mas ele estava dormindo, chorando enquanto sonhava. Eu o acalmei e voltei para a cama. Fiz um pai nosso e pedi para ter paz para dormir, pedi para afastar da minha casa qualquer presença não convidada. Fiz a proteção de luz dourada em torno da minha casa. Enquanto a sustentava mentalmente, adormeci, e a noite finalmente silenciou.
Outro sonho realista foi o que eu acordava em prantos numa casinha velha e pequena com a minha mãe. Eu chorava e me desesperava porque havia entregado meu bebê de 8 meses para para uma trupe de artistas andarilhos. Obviamente o sonho não se passava em nossos tempos. Parecia que eu estava num filme de época. Eu saia andando pelas cidadelas, em ruas de cascalho ou terra batida, perguntando pelo meu filho, tentando encontrar pistas de onde passaram os artistas saltimbancos. Era uma angústia difícil de expressar. A culpa e o remorso me corroíam. Acordei péssima. Triste, angustiada, com uma sensação de vazio.
Mas a coisa não para por aí...
Fui no Candomblé na saída da minha afilhada que foi iniciada. Eu entrei em transe durante a gira, ainda que não houvesse ninguém ainda "virado no santo". Era um dia agradável, o tempo fresco e eu estava bem. Então, sem mais nem menos, percebi minhas mãos ficando muito geladas e úmidas, em seguida, um enorme arrepio no corpo inteiro e depois um calor intenso, fora do comum, tomou conta do meu corpo. Psiquicamente comecei a perceber que estava me distanciando da realidade, como se estivesse num sonho, como se estivesse perdendo o contato com a realidade e com o meu próprio corpo. Dentro de mim estava agitado, como se eu fosse me levantar e dançar, não com a delicadeza de um orixá, mas loucamente como uma bruxa ensandecida e em êxtase. Mas antes de qualquer reação, das profundezas do meu inconsciente veio uma voz que disse: Camila, abra os olhos! Era a voz da Iracema, pasmem. Imediatamente eu abri os olhos e voltei à realidade. Percebi que estava com o coração disparado, a respiração ofegante, as mãos frias e molhadas de suor. O Gabriel ao meu lado perguntou se eu estava passando bem. Fiz que sim com a cabeça. Eu estava sob controle. Eu sabia o que tinha se passado. Tive as mesmas sensações ao longo de mais ou menos 1 hora de apresentação dos iniciados, mas pude controlar, me conectando com a realidade material: olhava para a janela e para as árvores lá fora, ou para o teto cheio de bandeirolas, ou mexia com o Álvaro. Isso foi eficaz para evitar entrar novamente em transe. Em algum momento senti muita vontade de chorar. De chorar um choro copioso, daqueles que soluço tanto que não consigo responder. Mas desviei a atenção e passou.
O que teria acontecido se não viesse a voz da Iracema me acordar? Eu não faço a menor ideia. Eu não senti medo algum. Em tempos atrás eu entraria em pânico. Essas alterações físicas e psíquicas me levaram várias vezes a ter crises de pânico. Mas dessa vez eu sabia que não era uma crise e, de certo modo, relaxei, permiti. Foi a primeira vez que tive essas sensações dentro de um contexto no qual elas possuem um outro sentido, bem definido. Ali, ninguém me diria que eu estava enlouquecendo, surtando, ou tendo uma crise de ansiedade. No entanto, por não saber como eu iria reagir ao me entregar, nem o que aconteceria depois, tive medo de assustar o Gabriel e principalmente o Álvaro. Por isso, conversando com a Iracema, ela disse que eu senti medo do transe por isso meu inconsciente "chamou" a imagem de alguém de confiança para me trazer de volta, me tirar do transe.
Thamires disse que foi a presença da minha orixá, Oxum, que queria se manifestar. Eu sinceramente não tenho como avaliar isso, pois não foi nada específico neste sentido. Apenas sensações físicas e psíquicas. Ela disse que o orixá, se quiser, me "pega" sem que eu possa controlar. Essa informação é importante, pois, assim, vou passar longe do candomblé, por um bom tempo pelo menos. Não aceito nada me "pegando" dessa forma. Nada que me deixe sem alternativa será bem vindo por aqui. Meu corpo, minhas regras, ok? O fato é que, apesar de eu ter conseguido controlar, eu não fiz nada deliberadamente em direção a isso, eu estava apenas lá, apreciando o momento e tentando entender a dinâmica ritual quando o transe aconteceu.
Quando ouço vozes de pessoas, falando diretamente comigo ou não, ou então quando vejo vultos, luzes, cores, ou ainda sinto cheiros que ninguém mais sente, essas que são percepções sensoriais, a primeira hipótese é sempre estar tendo qualquer tipo de alucinação, ou a captação de algo que foi interpretada de um modo descabido pelo meu cérebro. Mas quando as sensações são absolutamente físicas, quando o coração dispara, as mãos esfriam, sou envolvida por um calor surreal, ou então sinto toques no meu corpo, que podem ser sutis ou bruscos, cara, isso me afeta fisicamente de um modo muito direto e me deixa intrigada e um tanto agoniada. Se eu vejo uma luz eu esfrego os olhos e penso, ah, coisa da minha cabeça. Mas se meu coração dispara sem razão, sinto arrepios seguidos, e sinto um empurrão do invisível, a coisa já começa a ficar mais desagradável... difícil dizer "é só minha imaginação", porque são sensações físicas, e não apenas senso-perceptivas.
Não tenho me assustado porque sei que sou mesmo suscetível a isso, que não estou enlouquecendo e que se peço ajuda sou atendida. Então, eu percebo, reconheço e desvio a atenção. Mas essas experiências me deixam uma angústia: o que fazer? O que mais vai acontecer? O que faço com isso? Vou me desviando como já aprendi fazer? E isso vai funcionar até quando? As vezes vou me sentindo acuada diante dessas coisas, sinto que elas vão me pressionando, me colocando contra a parede, como quem diz: e aí minha filha? Se movimenta! Sei lá.... sei lá... muito louco, eu não ter escolhido viver nada disso e agora deixar de fazer minha lição de inglês pra digerir essas informações...
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