segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Oi, eu sou sua Melancolia


A melancolia deve fazer parte de mim e o que me resta é aceitá-la como sentimento que me compõe. Quando ela me bate à porta... ou melhor, quando dou por mim ela já adentrou e dou de cara com ela em meu sofá apossada do controle da tv. Me lança um olhar letárgico me dizendo 'oi meu bem, se achegue, sou mais uma vez sua companhia'. Percebo que a sala de paredes verde oceano se acinzentou. Não há fuga possível, o jeito é sentar ao seu lado. No ar um tom fúnebre. Meu coração pesa e parece que vai descer para o estômago. De nada adianta questioná-la. De nada adianta dizer que não foi convidada e que não há ocasião. Ponho-me apenas a observá-la, pois dela não vem palavra alguma. Suas mãos frias tocam as minhas que vão se tornando úmidas e gélidas como a pele de um réptil. Seu toque percorre meu corpo me fazendo sentir todas as dores do mundo. Toda a dor humana está ali concentrada e me toma de assalto. Me sinto a criatura mais infeliz da face desse planeta. Algo qualquer, sem significado algum. Egoísta, tonta, louca. Sou incapaz de repelir esses sentimentos. Olho para a janela e uma tempestade se forma. Ela tem cores cinza e acastanhado. Os raios iluminam por de trás das nuvens numa cena de impressionante beleza. Sim, beleza. Eu me lembro dessas palavras "também há beleza na tristeza humana", agora posso compreendê-la. Penso que talvez tenha me tornado algo que evitava, nas palavras do Baleiro, "triste, como o poeta que envelhece lendo Maiakovski na loja de conveniência". Recordo-me que ao final da adolescência meu desejo era "como um cego no escuro tatear estrelas distraídas"... Onde isso se perdeu eu me pergunto. Pois a tempestade avança, castanha, imponente. E era tão lindo. Quando a chuva lavou o céu, as lágrimas não se contiveram, saíram entre soluços e silêncios. Sou capaz de chorar assim, sentida como uma criança que se perdeu dos pais, e já não penso que não há razão para isso, apenas permito dar vazão a este sentimento denso que me tensionava o peito, afinal, o choro é livre. Peço a deus ou a qualquer força que seja maior que a minha que essas águas lavem todas as dores, minhas e de quem quer que seja, e que o dia claro possa vicejar novamente. A melancolia se levanta de meu sofá, antes de deixar a sala me lança uma piscadela. Um sono profundo me abate. É o momento de recuperar as forças. Com um suspiro caio no sono, certa de que amanhã o céu estará limpo e sereno outra vez.

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