Cenas como a de uma mulher vendendo balas no sinal com um bebê de menos de um ano pendurado em seu peito debaixo de um sol de 35 graus me fazem olhar a vida por uma perspectiva bem diferente. Por um momento a vida parece perder completamente o sentido. Não sou capaz de ver essa cena e não me questionar o que me faz estar desse lado de cá e ela do outro. Como posso ter abundancia e outros tão pouco? Não posso com essa discrepância. Olho para o planeta e enxergo tanta riqueza. Olho para os homens e vejo imensas capacidades. Mas quando olho para fora do vidro do carro não sou capaz de entender o que se passa. Por que fazemos isso uns com os outros ainda hoje? É claro que tenho na ponta da língua a resposta racional, crítica, dos mecanismos sociais que regem a dança da desigualdade. O que quero entender é o que nos move, ou nos imobiliza, a ponto de repetirmos a mesma lógica quando a realidade já está mudada? Se pode haver riqueza para todos porque uns poucos a concentram toda em suas pequenas mãos? Como posso ser plenamente feliz ao estar com a barriga cheia e protegida do sol dentro do meu carro quando tem outra pessoa do lado de fora passando necessidade? Ainda assim não fui capaz sequer de comprar a bala... Não posso deixar de me sentir patética... e também imobilizada como todos os outros.
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