Onde é que eu fui parar
Aonde é esse aqui
Não dá mais pra voltar
Por que eu fiquei tão longe…
Tão longe…
Onde é esse lugar
Aonde está você
Não pega celular
E a Terra está tão longe…
Tão longe…
Não passa um carro sequer
Todo comércio fechou
Não tem satélite algum transmitindo notícias de onde eu estou
Nenhum e-mail chegou
Nem o correio virá
E eu entre quatro paredes, sem porta ou janela pro tempo passar
Dizem que a vida é assim
Cinco sentidos em mim
Dentro de um corpo fechado no vácuo de um quarto no espaço sem fim
Aonde está você?
Por que é que você foi?
Não quero te esquecer
Mas já fiquei tão longe…
Tão longe…
Não dá mais pra voltar
E eu nem me despedi
Onde é que eu vim parar?
Por que eu fiquei tão longe…
Tão longe…
A criança sente. Sim, ela sente tudo o que nós adultos sentimos. Ela sente tristeza, dor, decepção, raiva, medo, solidão e todos os mais diversos sentimentos que um ser humano é capaz de sentir. No entanto, ela, por ainda ser muito nova nessa terra, não possui os mecanismos para identificar, nomear, entender e elaborar de forma eficiente esses sentimentos. Os adultos são os responsáveis por acolher essas emoções e ajudar a criança a nomeá-las e a lidar da forma mais saudável com cada uma delas. Somos animais sociais, dependemos inteiramente do outro para nos tornarmos humanos, para desenvolver nossas capacidades. O outro não só me dá a vida, mas tudo aquilo de que eu preciso para continuar vivo, seja em termos orgânicos, como alimento, seja em termos afetivos e emocionais - temos por essência o colaboracionismo.
A perda de um ente querido é algo doloroso para todos aqueles que eram próximos. Com a criança não é diferente. A diferença é que talvez ela ainda não tenha sido apresentada à morte e não tenha nenhum instrumento para lidar com aquela novidade. Para ela só havia a vida. Ela, até então, não percebia que a morte é parte inerente à vida. A morte é tão importante e factual quanto o nascimento. Muitas sociedades se definem pela maneira como lidam com seus mortos. Desde de muito o homem criou rituais para este acontecimento. O velório e enterro fazem parte da cultura da nossa sociedade. É de certa forma um ritual, no qual a família vive o luto, chora a perda, mas também relembra boas coisas daquele que se foi. Os familiares e amigos se reúnem para dar apoio e solidariedade àqueles que ficaram. As pessoas se abraçam, se compadecem, se solidarizam por aquela dor. A dor passa a ser partilhada, dividida. Por fim, nos despedimos do ente querido. Damos adeus, e, geralmente, fazemos uma oração, acendemos velas, damos flores e pedimos à deus, aos anjos que o recebam, desejamos, por fim, que essa pessoa se vá em paz. E assim se inicia a elaboração daquela perda. Essa vivência é fundamental para a vida de qualquer pessoa, pois ninguém neste mundo, a não ser que não viva tempo o suficiente, terá de atravessar esse momento. Terá de encarar a morte. Não há formas de fugir disso. Afinal, todos que vivem estão condenados a morrer. A dor da morte e da perda são inescapáveis. Não podemos poupar a criança deste fato da vida. Não podemos excluí-la, esconder dela que a morte e a dor e a perda são momentos que todos vão passar. Querer defendê-la dessa dor faz com que ela não aprenda com os seus pares - os adultos responsáveis por ela - os mecanismos para lidar com estes sentimentos. A ela é negado que, a partir dos outros, crie seu próprio escudo, que a partir daquela vivência compartilhada com as pessoas próximas, aprenda a elaborar e a superar a perda e os inúmeros sentimentos que podem ser despertados por ela. Lhe foi tirado um direito de desenvolver dentro dela mesma uma força necessária para lidar com os obstáculos da vida.
Sendo negado esse momento, a criança que mantinha um vínculo afetivo com aquele que se foi, pode elaborar diversas fantasias a respeito daquele acontecimento. Ela pode se sentir extremamente só e impotente. Pode se sentir injustiçada, culpada, e, sem ajuda para compreender isso tudo, este emaranhado de sentimentos pode se transformar em raiva, medo, desejo de controle excessivo. Alguém tirou aquela pessoa dela e transformou a vida de uma forma abrupta. A criança não tem a noção de passagem, para ela as coisas são fixas, e naquele momento, tudo era triste e assim seria por toda a vida. E ela sente raiva de não ter podido impedir aquilo e nem mudar as coisas. Ela só queria que tudo voltasse a ser como era antes. Mas não dava e isso a enraivecia. Porque isso aconteceu? A mãe diz que "papai do céu" levou o avó querido. Ela queria acertar as contas com esse cara. Se negava a rezar. Porque então deus não aparecia para conversar com ela? Se deus é bom porque ele deixa as crianças sofrerem? Porque ele deixava que as crianças fossem abandonadas, nas ruas, sem ninguém por elas? Que pecado elas haviam cometido para estarem sendo punidas?
E novas fantasias vão se construindo e criando raízes que vão acompanhá-la pela vida a fora se ela não tiver a oportunidade de reelaborá-las.
E novas fantasias vão se construindo e criando raízes que vão acompanhá-la pela vida a fora se ela não tiver a oportunidade de reelaborá-las.

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