A sala de aula nunca me ensinou tanto como neste ano. Porque, como diz o meu professor de ioga, o tormento, a perturbação também são bons e precisamos estar abertos a eles. Porque na vida nem tudo é como se quer e apesar disso continuamos vivendo e aprender a lidar com esses sentimentos é fundamental. Pois sim.
Com uma turma difícil em uma escola difícil iniciei o meu ano contando os minutos para o seu fim. Toda vez que pisava na escola pensava no dia em que não precisaria mais estar ali. A cada dia, uma nova contagem regressiva. A cada semana um alívio: ufa, uma a menos! Sequer passava por minha cabeça que uma semana a menos na escola também significava uma semana a menos de vida para mim...
Aflita e ansiosa, minha relação com as crianças foi se tornando rude, impaciente e frustrante. Eu não admitia estar limpando cocô a cada 30 minutos, trocando fralda no chão, tendo que usar minhas próprias luvas. Não, eu não admitia. Eu não admitia uma criança de apenas três anos fazer pouco de meus comandos e dar de ombros às minhas broncas. Não, eu não admitia não ter nenhuma autoridade sobre aquele ser. Eu não admitia ter perdido completamente o controle sobre a minha turma. Porque assim eu aprendi o meu ofício: eu mando e vocês obedecem, com algumas, raras, exceções. Porque tem regras. Porque existe uma rotina que deve ser seguida. Porque tem um planejamento. Porque se não for assim vira uma zona. Tantos porquês. Nenhuma resposta de fato.
Esse comportamento de evitação, de rejeição - ou seja, a não aceitação daquilo que eu não podia mudar - me adoeceu. Me adoeceu de tanta raiva de não saber lidar com a perturbação, com o tormento que estava sendo aquela escola na minha vida. Então, com o tempo que me foi dado, me dediquei a compreender aquele redemoinho de ruindades e como sair dele viva e, de preferência, sem rivotril. Foi aí que entrou a ioga e a meditação na minha vida. A ioga prega a cultura da não violência e a meditação te permite refletir com mais clareza sobre os sentimentos e pensamentos.
Na minha volta à escola, decidi que iria adotar outra postura. Primeiro decidi a não focar minha atenção naquilo que eu não tinha o poder de mudar, e trazer minha atenção para aquilo que eu poderia fazer diante das circunstâncias. Permita que as coisas sejam como são, tem sido o meu principal mantra.
Notei que antes eu estava disputando poder com as crianças. Quanto mais eu insistia que elas tinham que obedecer as regras, mais rebeldes elas ficavam. Especialmente uma criança. Sim, exatamente aquela que me dava de ombros. Percebi que quanto mais eu o forçava a fazer como todos os outros, mais ele me desafiava, quanto mais eu brigava, mais ele provocava, quanto mais era hostilizado, mais hostilizava. Essa minha reação, confesso, era pouco adulta e pouco profissional, mas uma falha humana e como tal, perdoável. Eis que voltei disposta a tentar outra estratégia: a compaixão, esta que virou meu segundo mantra.
Mudei o tom de voz para um mais amigável e suave. Retirei do vocabulário qualquer palavra negativa referida àquela criança, como "não faça isso! Devolva! Isto é mau! Que feio!" mudando para "você é um menino bom, está apenas cuidando da mochila do seu colega, mas já vai devolvê-la, certo?, será que você consegue tirar sozinho a roupa de xixi?!!, Preciso de alguém forte para me ajudar com isso, você consegue??" seguido de muitos elogios. Quando ele demonstra nervosismo e está prestes a bater em alguém ou quebrar algo eu corro e abraço ele "dá um abraço na prô que vai ajudar a te acalmar, respira comigo...". E simplesmente deixei de tentar forçá-lo a fazer as coisas. Se ele quer dormir um pouco mais, tudo bem, que mal faz? Eu separo o seu leite. Se ele não quer se sentar para comer, ok, deixo ele andar no refeitório até resolver se sentar. Ele quer levar para a sala alguma coisa que ele encontrou no parque? Tudo bem também. Permita que ele seja o que ele é. Sempre observando, claro, se ele não está se colocando em perigo ou agredindo os outros.
O resultado? Bem, ele continua uma criança difícil de lidar, mas hoje já não me dá o trabalho que dava antes. A relação passou a ser de mais confiança. Ele já consegue fazer combinados comigo e cumpri-los tranquilamente. E quando eu percebo que ele está fazendo algo insistentemente e que a minha conversa já não resolve, eu não esbravejo com ele, apenas peço ajuda, e pacientemente o entrego à outra pessoa. Tudo isso aliado a muitas conversas com a mãe e a avó.
Essa criança é apenas uma criança. Carente, com uma enorme necessidade de atenção, que sente falta do pai, sente raiva e frustração por ter sido deixado, além de medo do abandono, e simplesmente não sabe expressar nem lidar com todos esses sentimentos. Ele grita por ajuda. É um crime taxá-lo de "perdido" e deixá-lo à deriva.
E assim vou aprendendo a cada dia a ter paciência, a agir com calma, atenção, a ser solidária com as dores dessas crianças. Elas não tem uma vida fácil. O mínimo que posso dar a elas é minha dedicação, compreensão e afeto.
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