sábado, 6 de agosto de 2016

Ao trabalho

A volta à escola foi melhor do que eu esperava. Não senti o coração apertado nem nada disso. Estou absolutamente impressionada com a minha calma. Minha mudança de atitude perante as crianças está me enchendo de força. Não me aborreço mais com as peripécias de alguns danadinhos. Converso, abraço, beijo, pego no colo. E não é que isso tem funcionado? A carência é tão grande que não cabe dentro deles. Bem diz aquela música "o seu olhar melhora o meu". Um olhar de compaixão faz toda diferença. Estou aprendendo mais que nunca.

O mais difícil na escola onde trabalho é aceitar as atitudes e posturas de alguns adultos. Aquela escola causa uma imensa sensação de abandono em cada um que pisa nela. Nem é preciso conviver diariamente lá dentro para notar isso, os muros da escola falam por si. Isso sim me irrita. Essa negligência. Essa apatia. Este estado de espírito "não é problema meu" que acomete as pessoas. Me irrita ainda mais esta preguiça esmagadora de alguns que se dizem evangélicos e pedem para deus fazer aquilo que eles mesmos poderiam fazer, mas não fazem, por pura preguiça e má vontade. Além, muito além disso, me irrita esta escancarada hipocrisia, essa cara de pau de se exibir como cristão, como sendo algo que os classifica acima dos outros, e menosprezar tão descaradamente o próximo. E não é apenas menosprezar o próximo, mas achar que ele vale menos do que você, cristão e cidadão de bem. Só que não. Pessoas assim me causam uma irritação de adoecer o espírito.


Nesta escola a sensação de estar abandonada e não valer nada é mortificante, a ponto de eu parar certo dia sozinha na sala de aula, após ouvir de uma coordenadora que uma criança de três anos não tem mais jeito, e perceber que só me resta pedir ajuda pra deus, porque ali estou absolutamente sozinha diante de árduas batalhas para enfrentar. Daí então, entendi como se faz pessoas, seres tão cheios de capacidades, acreditarem em um deus acima deles, é simples, transforme a vida delas em um inferno, lhes tirando tudo aquilo que é necessário para a vida. Pronto se fez um crente. Apenas torço para chegar o dia em que religiões não sejam mais necessárias. Enquanto isso, eu reúno meus cacos, me imbuo de serenidade para aceitar aquilo que não posso mudar, e de força e compaixão para aquilo de que tenho alcance, me apoio em quem se sente tão abandonado quanto eu, e sigo em frente, certa de que "isso também passará", e que eu tenha deixado qualquer coisa de bom pelo caminho.



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