sábado, 5 de fevereiro de 2022

Confesso que sinto saudades dos tempos em que, adolescente, eu me trancava em meu quarto e lá ficava, sonhando, cantando, escrevendo, inventado, expressando minha loucura interna ali, no meu mundo subterrâneo, onde eu podia ser eu sem qualquer restrição ou vergonha.

Há uma parte da Camila que ficou encoberta por muito tempo. Saindo da segurança do meu quarto, ao crescer e ver a vida dar as caras, silenciei, tranquei no porão escuro às sete chaves aquela que também me compunha, e me fazia ser inteira. 

Num primeiro momento eu a temia. Temia o quanto ela podia me desviar do caminho. Em seguida, então, em contato com o ceticismo da academia, expurguei o que dela havia sobrado, negando, caçoando, com ar soberbo "não acredito nessas coisas". Mesmo vendo. Mesmo sabendo. Eu escolhi o psiquiatra e o silenciamento compulsório.

Eu sei. Sinto vergonha de ser também aquilo que eu não escolhi ser. Sinto vergonha de sentir aquilo que os outros não sentem. Mas já não posso mais manter no porão essa Camila, pois a chavinha dessa porta sangra sem parar, e não vai parar de sangrar até que se escancare o porão e se encare aquilo que se tem negado.

Passei por tantas experiências que negar a existência daquilo que ultrapassa a tangibilidade da matéria seria um enorme cinismo da minha parte. Por outro lado, trazer à tona e deixar que se expresse significa não ser compreendida pelas pessoas. Significa ser julgada como leviana, crédula, sem raciocínio crítico. Ser vista como a lunática, maluca, alucinada. Ou, na pior das hipóteses, como doente mental. 

Por isso essa necessidade de escrever sobre essas experiências. De expô-las assim como são, de registrá-las, analisá-las, colocá-las a limpo. Eu ainda tenho uma mente analítica que não aceita qualquer explicação. Por isso, vou observando, buscando ser o mais honesta possível comigo mesma.

A verdade é que os outros são os outros, eles não importa. Eu me sentir inteira, ainda que me julguem, isto é fundamental para minha paz.





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