Por que tiram tanta licença? .
Posso relatar a minha experiência pessoal, e o que eu, professora da rede pública, ando sentindo em relação à minha profissão.
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Eu me sinto ridicularizada. Quando o governo me afunda até as orelhas em documentos e tarefas burocráticas que nunca acabam, alardeando que isso vai melhorar a educação e que o problema da qualidade do ensino é a falta de registros. Isso para mim tem outro nome: CONTROLE e INTENSIFICAÇÃO do trabalho.
Eu me sinto pressionada. Quando na sala de aula estou penando com a falta de estrutura, de pessoal, de material, pedagógicos e higiênicos, e preciso apresentar resultados e escrever cartas de intenções com toques de poesia.
Eu me sinto estúpida e cúmplice dessa desgraça quando nesses documentos preciso escrever "flores" pra não prejudicar a escola.
Eu me sinto enfurecida quando a categoria, os meus pares, se curvam ou, pior, entram na onda desse romantismo farsante.
Eu me sinto desprestigiada socialmente. Quando sai da boca de um ministro que só é professor quem não serviu pra outra coisa.
Eu me sinto desrespeitada, violada, ultrajada. Quando me deparo com gestores que padecem da síndrome do pequeno poder e nos tratam com escárnio e autoritarismo.
Eu me sinto enojada. Quando vejo alguns colegas que possuem o "pedagogês" na ponta da língua tratando um bebê com a grosseria de um ogro.
Eu me sinto desesperançada. Quando vejo o quanto nos falta de discussões mais politizadas no interior das escolas.
Eu me sinto impotente. Compactuando com um sistema desumano e desumanizador que me torna incapaz de oferecer um atendimento digno aos bebês e crianças.
Eu me sinto gastando uma energia em vão, alimentando morta ninhada, ou procurando sementes de papoula numa montanha de esterco. É aviltante. É uma ofensa à minha inteligência e à minha dignidade. É um desperdício de vida.
No teatro em que a educação é uma anedota eu me sinto o fantoche patético manipulado pelos desmandos dos governos e seus burocratas, enquanto a elite aplaude o sucesso desse fracasso habilmente planejado que é a educação brasileira.
Então, caros leitores, posso lhes afirmar com toda a certeza: sim, o desmonte da educação pública e o desmantelamento do prestígio e da dignidade do magistério causam doenças, sim! Físicas e mentais. Não tem mistério.
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