sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Por que os professores da educação básica estão adoecendo tanto?

 Por que tiram tanta licença? .

Posso relatar a minha experiência pessoal, e o que eu, professora da rede pública, ando sentindo em relação à minha profissão.

....

Eu me sinto ridicularizada. Quando o governo me afunda até as orelhas em documentos e tarefas burocráticas que nunca acabam, alardeando que isso vai melhorar a educação e que o problema da qualidade do ensino é a falta de registros. Isso para mim tem outro nome: CONTROLE e INTENSIFICAÇÃO do trabalho.

Eu me sinto pressionada. Quando na sala de aula estou penando com a falta de estrutura, de pessoal, de material, pedagógicos e higiênicos, e preciso apresentar resultados e escrever cartas de intenções com toques de poesia.

Eu me sinto estúpida e cúmplice dessa desgraça quando nesses documentos preciso escrever "flores" pra não prejudicar a escola. 

Eu me sinto enfurecida quando a categoria, os meus pares, se curvam ou, pior, entram na onda desse romantismo farsante.

Eu me sinto desprestigiada socialmente. Quando sai da boca de um ministro que só é professor quem não serviu pra outra coisa. 

Eu me sinto desrespeitada, violada, ultrajada. Quando me deparo com gestores que padecem da síndrome do pequeno poder e nos tratam com escárnio e autoritarismo.

Eu me sinto enojada. Quando vejo alguns colegas que possuem o "pedagogês" na ponta da língua tratando um bebê com a grosseria de um ogro.

Eu me sinto desesperançada. Quando vejo o quanto nos falta de discussões mais politizadas no interior das escolas.

Eu me sinto impotente. Compactuando com um sistema desumano e desumanizador que me torna incapaz de oferecer um atendimento digno aos bebês e crianças.

Eu me sinto gastando uma energia em vão, alimentando morta ninhada, ou procurando sementes de papoula numa montanha de esterco. É aviltante. É uma ofensa à minha inteligência e à minha dignidade. É um desperdício de vida. 

No teatro em que a educação é uma anedota eu me sinto o fantoche patético manipulado pelos desmandos dos governos e seus burocratas, enquanto a elite aplaude o sucesso desse fracasso habilmente planejado que é a educação brasileira.


Então, caros leitores, posso lhes afirmar com toda a certeza: sim, o desmonte da educação pública e o desmantelamento do prestígio e da dignidade do magistério causam doenças, sim! Físicas e mentais. Não tem mistério.




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